O mercado internacional de gases refrigerantes voltou a acender um alerta importante para distribuidores, instaladores, indústrias e empresas de manutenção em climatização e refrigeração.
Segundo publicação da Cooling Post, a Beijer Ref UK, apontada como a maior atacadista de refrigeração e ar-condicionado do Reino Unido, anunciou um aumento de 60% no preço do gás refrigerante R410A, com aplicação a partir de 20 de maio de 2026. A mesma comunicação também informa reajustes de 60% no R407C, 35% no R134a e 30% no R32.
Esse movimento não deve ser lido como um fato isolado do Reino Unido. Ele faz parte de uma tendência global: a pressão crescente sobre os HFCs, especialmente os gases de maior GWP, em razão das políticas ambientais, cotas de importação, redução gradual de consumo e maior dificuldade de reposição no mercado internacional.
O R410A possui GWP de 2.088, segundo a tabela de referência da EPA, agência ambiental dos Estados Unidos. Isso significa que ele está entre os fluidos refrigerantes HFCs de maior impacto climático quando comparado ao CO₂.
Por que o R410A está ficando mais pressionado?
O ponto central é simples: o mundo está reduzindo gradualmente o consumo de HFCs.
Na União Europeia, a regulamentação F-Gas já estabeleceu uma trajetória mais rígida para redução dos HFCs, com controle por cotas em toneladas de CO₂ equivalente. A nova regulação europeia reforça esse caminho com cortes progressivos e pressão sobre gases de maior GWP.
No Reino Unido, embora o país tenha sua própria estrutura regulatória após o Brexit, o mercado também opera com controle de gases fluorados e necessidade de cotas para produção, importação e colocação de F-Gases no mercado. O próprio governo britânico informa que produtores e importadores precisam de quota, autorização ou delegação para colocar F-Gases no mercado da Grã-Bretanha.
Ou seja: quando o acesso ao produto é limitado por cotas e a demanda de manutenção continua existindo, o preço tende a reagir.
E o Brasil, entra onde nessa história?
O Brasil também já está dentro desse processo.
A Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal foi promulgada no Brasil pelo Decreto nº 11.666/2023. A partir disso, os HFCs passaram a ser controlados dentro de uma política de redução gradual de consumo. O Ibama publicou a Instrução Normativa nº 29/2023 para regulamentar o controle de importação de HFCs e misturas contendo HFC, estabelecendo limites anuais máximos de importação em toneladas de CO₂ equivalente.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a Emenda de Kigali incluiu os HFCs na lista de substâncias controladas e tem como objetivo reduzir o consumo dessas substâncias de forma escalonada até 2045.
Para o Brasil, o cronograma prevê congelamento do consumo de HFCs a partir da linha de base, seguido por reduções graduais: 10% até 2029, 30% até 2035, 50% até 2040 e 80% até 2045, conforme materiais oficiais e técnicos relacionados à implementação brasileira da Emenda de Kigali.
Isso significa que o R410A vai subir 60% no Brasil?
Não necessariamente. Seria irresponsável afirmar que o aumento de 60% anunciado no Reino Unido será replicado exatamente no Brasil.
Mas o sinal é claro: o mercado global está mais sensível, mais regulado e mais sujeito a reajustes fortes.
No Brasil, o impacto pode vir por vários caminhos:
- Cotas de importação em tCO₂ equivalente, que limitam o volume disponível de HFCs de maior GWP.
- Pressão internacional de preços, especialmente quando Europa, Reino Unido, Estados Unidos e outros mercados disputam moléculas semelhantes.
- Transição tecnológica para fluidos de menor GWP, como R32, R454B e outras alternativas, reduzindo gradualmente o foco da indústria em gases tradicionais.
- Aumento da demanda por manutenção, já que há uma base instalada enorme de equipamentos operando com R410A.
- Risco cambial e custo logístico, que continuam influenciando diretamente o preço final no Brasil.
O que o cliente precisa entender agora?
O R410A ainda é amplamente utilizado em sistemas de ar-condicionado e refrigeração. A demanda de manutenção continua forte, mas o mercado internacional está mudando rapidamente.
Quem trabalha com instalação, manutenção, revenda ou operação de equipamentos precisa se antecipar. O cenário atual exige planejamento de estoque, compra técnica e atenção à procedência do produto.
Preço baixo demais em um mercado pressionado pode significar risco: produto sem rastreabilidade, documentação incompleta, origem duvidosa ou baixa disponibilidade de reposição.
O aumento de 60% do R410A no Reino Unido é mais do que uma notícia local. É um sinal do que já vem acontecendo no mercado global de refrigerantes: maior controle ambiental, restrição de oferta, transição para gases de menor GWP e volatilidade nos preços.
No Brasil, a implementação da Emenda de Kigali e o controle de importações pelo Ibama tornam o planejamento ainda mais importante.
Para empresas que dependem de gases refrigerantes, o momento é de atenção. Comprar com fornecedores estruturados, com documentação correta, FDS disponível, rastreabilidade e estoque confiável deixa de ser apenas uma vantagem comercial — passa a ser uma necessidade estratégica.